Estamos na década de 1980. Tudo é neon, tecnológico (na medida do possível) e tudo que fosse chamado de digital, virtual ou algo nesse sentido atraía muita atenção. Nesse cenário, a Hanna-Barbera decidiu apostar numa inovadora tecnologia para suas animações, que seria batizada de digipaint.
Anúncio de 1993 do workshop de animação digital da Hanna-Barbera |
Para entender como funcionava o digipaint, temos que entender o que é a animação tradicional.
A animação tradicional consiste no animador desenhar cada frame num papel branco, em seguida transferir este desenho para uma folha transparente, o acetato, que seria colorido com tinta do lado oposto ao desenho e colocado por cima do cenário. Na maioria dos casos, esses frames eram capturados em película.
Célula de animação original de 1969 |
No caso do digipaint, cenário (já finalizado) e desenhos eram digitalizados e os frames eram coloridos pelo computador e masterizados em vídeo.
Artigo de 1984 sobre o processo do digipaint da Hanna-Barbera, com destaque para o uso de computadores Grinnell. Clique na imagem para ver o artigo em HD. |
Película, vídeo, o que é isso?
Película: muito usada no cinema antigamente, a película é um formato analógico (físico) de se registrar uma filmagem, garantindo uma imagem de alta qualidade. Até onde se tem informações, supomos que a maioria dos episódios, especiais e filmes de Scooby-Doo feitos entre 1969-2000 foram masterizados* em película de 16mm, que seria "equivalente" a uma resolução de 1080p ou 2K.
Entendeu de onde vêm essas "fitinhas do cinema"? |
Vídeo: assim como a película, é um formato analógico de filmagem, mas com qualidade inferior. Quando falamos vídeo, pense numa "fita VHS 2.0". O vídeo acaba não mantendo muitos detalhes, o que torna o conteúdo do formato limitado, e o máximo que pode se aproveitar de um vídeo "cru" em quesito resolução de imagem é uma definição SD, por volta dos 480p ou 540p.
Videotape (fita de vídeo) |
*De forma resumida, masterização = finalização/exportação.
Mas quando usaram o digipaint?
Uma das primeiras vezes (se não a primeira vez) que a HB usou essa técnica foi no episódio 5 de "Os Novos Mistérios de Scooby-Doo", de 1984. Os primeiros quatro episódios dessa série foram produzidos com animação tradicional e finalizados em película, bem como a abertura e os créditos do desenho, enquanto os outros 9 foram feitos com o digipaint e finalizados em vídeo. O digipaint ficaria afastado de Scooby-Doo por alguns anos até voltar em 1988 com o filme "Scooby-Doo e o Lobisomem" e a primeira temporada de "O Pequeno Scooby-Doo", série que faria um uso estranho do digipaint. Os 13 episódios da primeira temporada, a abertura e a imagem de fundo dos créditos da série seriam feitos em digipaint, enquanto as últimas três temporadas e os letreiros dos créditos das mesmas seriam finalizados em película. Após essas ocasiões, o digipaint apareceu uma única vez na franquia, em 1994, no filme "Uma Noite das Arábias", considerado por alguns fãs o pior uso dessa tecnologia em Scooby-Doo.
Primeiro uso do digipaint em Scooby-Doo (1984) |
Último uso do digipaint em Scooby-Doo (1994) |
E para remasterizarem essas obras?
Tecnicamente, é impossível remasterizar essas produções finalizadas em vídeo, pois grande parte dos detalhes se perdeu nessa masterização em fita, mas algumas foram aprimoradas com técnicas de upscale (no caso, um tratamento manual sobre o material original, não um upscale com inteligência artificial). Em 2023, "O Pequeno Scooby-Doo" foi remasterizado e disponibilizado no streaming Tubi, incluindo a primeira temporada, numa qualidade que, apesar de não ser perfeita, surpreendeu muitos fãs. No ano seguinte, "Scooby-Doo e o Lobisomem" foi lançado em Blu-ray com resolução Full HD. Como a qualidade da imagem não estava das melhores, a Warner Archive, responsável pelo lançamento, remasterizou o especial "Scooby em Hollywood", finalizado em película, e incluiu como um extra no disco para "compensar" a imagem "ruim" do longa. Antes do filme começar, o lançamento em Blu-ray exibia a mensagem:
"SCOOBY-DOO E O LOBISOMEM
foi um dos dois telefilmes dos 'Superstars 10' que a
Hanna-Barbera produziu usando uma forma arcaica
de tinta e pintura digital, e foi exportado para um master
de fita de vídeo de 1 polegada, sem qualquer tipo de proteção de película.
Essa apresentação foi aprimorada de seu master analógico
original de definição padrão para alta definição digital, com todos
os esforços feitos para melhorar a qualidade visual do programa."
Mas a imagem realmente muda da película pro vídeo?
Talvez alguns pensem que se o vídeo for digitalizado, sem qualquer alteração, a qualidade atingirá o nível da película, mas isso não acontece, veja alguns exemplos. Repare que as produções em vídeo tem uma aparência muito pixelada.
Comparações HD VS Vídeo
Episódio de "Scooby Doo, Cadê Você!", série originalmente masterizada em película. Do lado esquerdo, remasterização em FHD de 2004. Do direito, cópia em vídeo dos anos 90:
Diferença entre 16mm transferido para vídeo e vídeo "nativo" |
Frame de "Cadê Você!" em HD VS "Lobisomem" em Blu-ray:
16mm em HD VS vídeo escalado para HD |
Que interessante! É loucura parar pra pensar como a maioria dos episódios de Scooby Doo foram desenhados à mão, e como isso reflete na qualidade que nós temos disponível hoje em dia.
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